A viagem gelada da vacina: como calor, enchentes e apagões ameaçam cada dose de imunizantes no Brasil

🇧🇷 Globo (BR) —
A viagem gelada da vacina: como calor, enchentes e apagões ameaçam cada dose de imunizantes no Brasil

AI Summary

Brazil faces challenges in maintaining the cold chain required for vaccine potency amid climate change impacts including heat, floods, and power outages. The issues threaten vaccine efficacy, especially due to El Niño effects causing extreme weather variations across regions.

André Rocha Uma dose de vacina é aplicada em segundos, mas chega ao braço no fim de uma viagem longa e gelada. Da fábrica ao posto de saúde, ela cruza parte do país sem que o frio escape em nenhum ponto do caminho —é essa temperatura constante que a mantém capaz de proteger. O trajeto tem nome: rede de frio. Uma engrenagem de câmaras, caminhões e geladeiras que entrega a vacina tão forte quanto ela saiu da linha de produção. E que, num planeta mais quente e imprevisível, passou a enfrentar um adversário à altura: calor, enchentes e quedas de energia, cada um pressionando a seu jeito a estrutura que mantém os imunizantes vivos. Uma vacina não pode esquentar Antes de chegar ao posto, a dose descansa em câmaras frias do tamanho de galpões, embarca em caminhões refrigerados e espera em geladeiras especiais nas unidades de saúde —sempre entre 2 e 8 graus. Paulo Ernesto Gewehr Filho, representante da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) no Rio Grande do Sul, resume o porquê de tanto cuidado. "A rede de frio é o sistema que armazena e transporta as vacinas até os pontos de aplicação sem que elas percam potência, eficácia e segurança. São produtos termolábeis: precisam de uma faixa de temperatura definida para preservar as características que tinham ao sair da fábrica", explica o médico. Fora dessa faixa, algo invisível começa a acontecer: as proteínas que formam o imunizante se modificam, e a dose pode simplesmente parar de proteger. "A vacina pode perder o efeito de proteção e, em alguns casos, aumentar o risco de reações", diz Gewehr. Nem toda dose que passou do ponto vai para o lixo —ela é separada e investigada, num episódio que ganhou até nome técnico, "excursão de temperatura", para decidir, pelo tempo e pelo calor a que ficou exposta, se ainda serve. Bernardo Portella O mesmo fenômeno, efeitos opostos O que complica a vida de quem cuida das vacinas é que o El Niño não repete a mesma receita em todo lugar. Segundo a nota técnica do Ministério da Saúde, apoiada em dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e de outros órgãos, o fenômeno deve encharcar parte do Norte e do Nordeste, com risco de enchentes na Amazônia, e ao mesmo tempo secar o Sul e o Sudeste, com estiagem, queimadas e ondas de calor. No meio disso, uma constante: quase o país inteiro mais quente que o normal —e é o calor que mais tira o sono de quem guarda as doses. “Quanto mais quente o ambiente, mais o equipamento precisa trabalhar para manter a temperatura entre 2°C e 8°C. Se houver falta de energia e o sistema parar, a temperatura interna sobe mais rapidamente, especialmente quando está muito quente do lado de fora”, diz Gewehr. A seca traz seu próprio problema: no Norte, onde muitas comunidades só recebem carga por barco, rios rasos podem deixar postos sem reforço de estoque por semanas. A lição de Porto Alegre O El Niño provocou enchentes e deslizamentos no sul do Brasil em 2024 Florian Plaucheur/AFP via Getty Images Nenhum episódio recente escancarou essa fragilidade como a enchente que tomou o Rio Grande do Sul em 2024. Postos submersos, campanhas paradas e doses perdidas deram a dimensão do que acontece quando a água chega às geladeiras. Juarez Cunha, infectologista e diretor da SBIm, acompanhou o efeito em cadeia: com boa cobertura antes do desastre, o estrago é menor; o buraco aparece quando uma unidade fica alagada ou fechada por semanas, e a perda de doses, a campanha interrompida e a queda de cobertura chegam todas de uma vez. A saída, ali, foi correr atrás das pessoas. “A campanha de vacinação contra a gripe estava em andamento, então as equipes foram até os abrigos e vacinaram as pessoas no próprio local”, conta o infectologista. Durante o próprio desastre, sociedades médicas reuniram num documento os riscos de doenças ligadas às enchentes. A experiência reforçou o que os dois especialistas repetem: a hora de preparar a rede é antes da tragédia, não durante. O clima muda, e as doenças também El Niño continua a ganhar intensidade e pode durar até fevereiro de 2027, alerta ONU Reprodução Há um segundo efeito: o mesmo evento que atrapalha a vacinação costuma dar fôlego a algumas doenças. Depois de uma enchente, a água contaminada favorece a hepatite A e as infecções intestinais, e a leptospirose tende a crescer nas semanas seguintes —para essa, aliás, não existe vacina humana. Quando o calor volta, os mosquitos se multiplicam e alargam o território da dengue, da zika, da chikungunya e da febre amarela. Nos abrigos lotados, gripe, Covid-19 e sarampo circulam com facilidade. Não é um enredo só brasileiro. A Gavi, aliança internacional de imunização, lembra que o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) já classificou a vacina como uma ferramenta de adaptação ao clima —e que, de 375 doenças infecciosas analisadas, 218 podem piorar com o aquecimento. Para Cunha, o retrocesso deixa de ser hipótese quando as metas de cobertura não são atingidas. "É o que se vê agora com o sarampo, que voltou a

World Travel Health vaccine cold chain Brazil climate change El Niño floods heatwaves power outages

Read original source →