Entenda o que acontece no cérebro de quem se vicia em apostas
AI Summary
Researchers identified brain activity patterns linked to gambling addiction, revealing that anticipation of wins triggers stronger responses in affected individuals. This sheds light on neural mechanisms behind compulsive betting beyond the pleasure of winning.
No transtorno do jogo, impulso pode ficar forte demais e continuar mesmo quando o prazer diminui e os prejuízos financeiros e emocionais aumentam. Arquivo/Agência Brasil O governo federal anunciou nesta sexta-feira (25) novas medidas para endurecer as regras sobre as bets no Brasil. A medida proíbe as apostas e os jogos virtuais online no país. O presidente deve enviar ainda ao Congresso um projeto de lei que estabelece penas para quem explorar, operar ou divulgar as chamadas bets. Um dos pontos envolvidos no debate público sobre o tema é a relação entre apostas e saúde pública, incluindo o combate à ludopatia (doença de pessoas viciadas em jogos de azar). Há quem aposte de vez em quando sem maiores consequências, enquanto outras pessoas seguem jogando mesmo depois de acumular dívidas, conflitos familiares e sofrimento. A ciência mostra que a explicação vai além do prazer da vitória. Pesquisas recentes indicam que, em pessoas com transtorno do jogo, o cérebro reage com intensidade antes de o resultado aparecer, quando a recompensa ainda é só uma possibilidade. Um estudo publicado em 2026 na revista científica "Biological Psychiatry: Cognitive Neuroscience and Neuroimaging" registrou nesse grupo uma resposta cerebral mais forte à antecipação de ganhos. Quanto mais graves os sintomas, mais intensa era a reação enquanto os participantes esperavam para saber se tinham vencido. Cérebro reage antes do prêmio Diante de uma aposta, o cérebro pesa ao mesmo tempo a chance de ganhar, o risco de perder e o valor do que está em jogo. Nesse cálculo, áreas ligadas ao planejamento e à tomada de decisão agem em conjunto com circuitos de emoção, motivação e aprendizado. Um desses circuitos passa pelo estriado ventral, uma região no fundo do cérebro que funciona como uma espécie de central da expectativa: ela se ativa quando a pessoa antecipa algo que deseja. Uma de suas partes, o núcleo accumbens, é uma das peças-chave do sistema de recompensa, o conjunto de áreas que faz o cérebro buscar de novo aquilo que trouxe satisfação. A ínsula, por sua vez, transforma risco e incerteza numa sensação física de tensão e excitação, segundo o neurologista Alan Eckeli, professor livre-docente de neurologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP). Foi essa fase de espera que chamou a atenção dos autores do estudo de 2026. Com eletroencefalograma (EEG), eles registraram a atividade cerebral de 26 pessoas com transtorno do jogo e de 54 voluntários sem diagnóstico psiquiátrico durante uma tarefa que simulava uma máquina caça-níquel. A maior diferença entre os grupos apareceu antes do resultado: quem tinha o transtorno reagia com mais força à simples possibilidade de ganhar. O achado não transforma o exame numa ferramenta de diagnóstico, já que a pesquisa compara grupos, e não indivíduos. Mas ajuda a entender um dos mecanismos da dependência. Parte da força da aposta, portanto, estaria menos no prêmio do que na pergunta que vem antes dele: e se eu ganhar? Dopamina vai além do prazer A dopamina costuma ser descrita como a substância do prazer, mas seu papel no cérebro é mais amplo. Ela participa da motivação, do aprendizado e da capacidade de dar peso a sinais que anunciam uma possível recompensa. Por isso, até imaginar uma vitória que ainda não aconteceu pode acionar o sistema de recompensa, segundo Renato Anghinah, professor titular de neurologia da Faculdade de Medicina do ABC e livre-docente da Faculdade de Medicina da USP. Eckeli destaca o chamado erro de previsão de recompensa, a comparação que o cérebro faz entre o que esperava e o que de fato aconteceu. Quando o resultado supera a expectativa, o sinal de recompensa tende a ficar mais forte. Uma vitória inesperada, mesmo pequena, pode marcar o aprendizado mais do que um ganho já previsto. É por isso que a incerteza pesa tanto nas apostas. 'Querer' supera o prazer de ganhar Na experiência da recompensa, o neurologista separa o gostar do querer. Gostar é o prazer sentido na hora da vitória. Querer é o impulso de buscar essa sensação outra vez. No transtorno do jogo, esse impulso pode ficar forte demais e continuar mesmo quando o prazer diminui e os prejuízos financeiros e emocionais aumentam. Isso ajuda a explicar por que alguém segue apostando quando o jogo já deixou de ser divertido. Recompensa incerta prende mais O fato de os ganhos virem sem aviso também mantém o jogador preso. Nas apostas, a recompensa segue o que a psicologia chama de reforço intermitente: uma pequena vitória aparece depois de uma série de perdas e logo é seguida por novas derrotas. Segundo Eckeli, essa alternância mantém a expectativa sempre acesa. Anghinah acrescenta que mesmo ganhos pequenos, muito menores do que o total já perdido, podem servir de estímulo para continuar jogando. Assim, o cérebro aprende não só com a recompensa, mas com a chance de ela aparecer na próxima rodada. 'Quase ganhar' continua sendo perder Do ponto de vista matemático, um quase acerto é uma