'Irmã, pensei que fôssemos morrer': as horas de caos e angústia vividas por jornalista da BBC até achar a família após terremotos na Venezuela
AI Summary
A powerful double earthquake struck Venezuela with magnitudes 7.2 and 7.5, causing significant destruction and disruptions in Caracas and surrounding regions. Communications were severely affected, complicating rescue and family tracking efforts amid widespread damage.
Prédios destruídos pelo terremoto em Caracas AFP via Getty Images Na quarta-feira (24/6) às 18:06, no horário de Caracas (uma hora a menos que Brasília), na Venezuela, recebi um áudio da minha irmã, Verónica, pelo WhatsApp. Ela dizia: "Acabou de tremer muito. Ainda está tremendo". AO VIVO: Acompanhe as últimas atualizações da situação na Venezuela Ela estava ofegante, como se estivesse correndo. Ao fundo, ouvia-se a voz da minha mãe, distante demais para que fosse possível entender o que dizia. "O apartamento ficou todo rachado. Foi muito forte", disse Verónica, entre uma respiração e outra. "Estamos em casa." Apenas dois minutos antes, o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, na sigla em inglês) havia registrado um primeiro terremoto na Venezuela, de magnitude 7,2. Trinta e nove segundos depois, veio um tremor ainda mais intenso, de magnitude 7,5. Assim que terminei de ouvir o áudio, liguei para Verónica pelo WhatsApp. Ela mora na Primera Avenida do bairro Los Palos Grandes, conhecido por ser uma área de alto risco sísmico, segundo a lembrança de muitos moradores da capital venezuelana — como minha mãe, que viveu o grande terremoto de Caracas em 1967. Como a quarta-feira (24/6) era feriado na Venezuela, minha irmã e minha mãe haviam se reunido para passar o dia juntas. Se não fosse isso, estariam em lugares diferentes no momento do terremoto, cada uma ocupada com a sua rotina. A ligação chamou, mas Verónica não respondeu. Em seguida, tentei falar com a minha mãe pelo mesmo aplicativo, mas ela também não respondeu. Equipes de resgate procuram sobreviventes sob os escombros em Caracas AFP via Getty Images As mensagens não chegam Então, perguntei em um chat de amigos jornalistas que moram em Caracas se alguém poderia me ajudar a entender a dimensão do que estava acontecendo. "Houve um terremoto em Caracas?", escrevi às 18:09 no horário local. "Foi feio", respondeu um. "Nossa, muito forte", escreveu outro. "HORRÍVEL", disse uma terceira pessoa, em letras maiúsculas. Contei o que minha irmã havia dito no áudio, e um deles respondeu que ela provavelmente estava sem sinal. Embora conseguissem trocar mensagens pelo chat, eles diziam que as linhas telefônicas e a internet estavam fora do ar. Pedi à minha irmã que retornasse a ligação, mas a mensagem permaneceu com apenas uma marca de verificação. Sinal de que as mensagens não chegavam. As conversas individuais e os grupos de WhatsApp começaram a disparar notificações em sequência: alerta de terremoto na Venezuela, com impactos na Colômbia, em Trinidad e Tobago e nas Antilhas Holandesas; alerta de tsunami… Pedi a um dos amigos jornalistas que tentasse ligar para minha irmã usando uma linha telefônica venezuelana, para ver se conseguia localizá-la. Enquanto ele fazia a ligação, comecei a percorrer minha lista de contatos no WhatsApp para decidir para quem ligar primeiro. O que teria acontecido com minha tia, que morava no bairro de La California? E com meu tio, que morava no Estado de Aragua? E com minha prima, no Estado de Portuguesa? Amigos da época da escola, que também vivem fora da Venezuela, me escreveram perguntando como poderiam localizar suas mães, que estavam em Caracas. Eles já haviam tentado contato com outros parentes e vizinhos, mas ninguém respondia. Equipes de resgate retiram moradores de prédios e casas destruídas na Venezuela 'Com certeza há um monte de mortos' Em conversas com jornalistas, começaram a chegar vídeos de pessoas gritando e chorando enquanto tentam sair de seus edifícios. Alguns levavam seus cachorros enquanto pedaços de parede se desprendiam de andares superiores. O que será que tinha acontecido com os nossos gatos? De repente, uma amiga perguntou no grupo se alguém conhecia vizinhos que morassem na Primera Avenida, em Los Palos Grandes. Aparentemente, um prédio havia desabado. Mandei uma mensagem privada para ela pedindo mais informações, e ela me enviou um vídeo de um prédio que havia se esfarelado como um biscoito. Reconheci o local imediatamente: ficava a poucos metros da quadra onde minha mãe e minha irmã estavam. Em outro vídeo, filmado na mesma rua, um pouco mais adiante, via-se outro prédio que havia desabado. Mas, dessa vez, não consegui me localizar. Abri o Google Maps para tentar identificar o local em relação àquela esquina, mas fui tomada pela confusão e temi que pudesse ser o prédio da minha irmã. Naquele momento, já circulavam vídeos mostrando a devastação causada pelo terremoto em outras partes de Caracas como San Bernardino, onde edifícios também haviam desabado; o Aeroporto Internacional Simón Bolívar, no Estado de La Guaira, e em outras regiões do país. O governo não havia divulgado números de mortos nem feridos. Por outro lado, em vários vídeos que circulavam nas redes sociais, testemunhas dos desabamentos repetiam o mesmo comentário: "Com certeza há um monte de mortos". 'Praticamente perdi minha casa' Em meio à enxurrada de mensagens chegando às minhas conversas no celular, uma notificação de jornalistas se d