Sangue espesso, coração disparado e a ‘zona da morte’: como o corpo luta para sobreviver no Everest
AI Summary
Olívia Bonfim, the first South American woman to complete the Everest-Lhotse traverse, describes the extreme physical challenges the human body faces at very high altitudes. Experts explain how decreased oxygen at these altitudes thickens the blood and makes acclimatization a critical, slow process to avoid serious health risks like pulmonary and cerebral edema.
Olívia Bonfim, montanhista, primeira mulher sul-americana a completar a travessia Everest-Lhotse Arquivo Pessoal O sangue engrossa até os vasos precisarem se alargar para deixá-lo passar. O coração dispara e não desacelera, nem em repouso. O corpo passa a consumir o próprio músculo para gerar energia, e a fome some justo quando ela seria mais necessária. É o que a altitude extrema faz com o organismo humano —e boa parte disso começa muito antes do cume de uma montanha. A partir dos 8 mil metros, o processo ganha nome: zona da morte. É a faixa em que, mesmo com oxigênio na mochila, o corpo não consegue mais se adaptar e começa, aos poucos, a se degradar. Foi por esse território que Olivia Bonfim escolheu passar —não uma vez, mas duas, em menos de 24 horas. Aos 35 anos, engenheira formada pela Universidade de São Paulo (USP), Olivia tornou-se a primeira sul-americana a completar o projeto Everest–Lhotse, que consiste em pisar nos cumes das duas montanhas, a mais alta e a quarta mais alta do planeta, em sequência. Ela chegou ao topo do Everest, a 8.849 metros, na manhã de 21 de maio; na manhã seguinte, quase no mesmo horário, ao do Lhotse, a 8.516 metros —feito que rendeu a ela e ao marido, Carlos Santalena, guia da expedição, um registro no Guinness como primeiro casal a completá-lo. Para explicar o que o organismo enfrenta nessa travessia, o g1 ouviu Olivia e Marcos Bogado, cirurgião torácico e montanhista que integrava a mesma expedição e que, no meio da subida, precisou trocar o papel de escalador pelo de socorrista. Agora no g1 Culpa é do oxigênio Tudo se resume, primeiro, a uma conta de oxigênio. No nível do mar, a atmosfera oferece uma certa quantidade dele; a cada trecho de subida, essa oferta encolhe. No cume do Everest, o ar disponível cai para cerca de um terço do que se respira na praia. “Se uma pessoa que vive ao nível do mar fosse levada diretamente a essa altitude, poderia morrer em poucas horas. O organismo não consegue se adaptar a uma mudança tão brusca”, diz Marcos. É por isso que existe a aclimatação —e é aí que mora a primeira surpresa. Não há remédio, suplemento ou preparo de academia que substitua o processo. "A única forma de se aclimatar é subindo", resume o médico. A subida precisa ser lenta, em degraus curtos, com uma média de 500 metros ganhos por dia, que é o que o organismo consegue absorver sem entrar em sofrimento. Cada pessoa responde de um jeito, mas o princípio vale para todas: quanto mais devagar, melhor. Por baixo dessa regra há uma reação em cadeia. Com menos oxigênio, o sangue fica mais espesso —e o frio seco das grandes altitudes ainda desidrata o corpo, que perde água para o ambiente e torna o sangue ainda mais viscoso. Para acomodar esse sangue engrossado, os vasos se dilatam. Quando o processo avança rápido demais, líquido começa a se acumular onde não deveria. Os dois quadros mais temidos têm nome: edema pulmonar e edema cerebral, ambos capazes de matar. “O princípio para enfrentar uma montanha alta é simples na teoria, mas difícil de seguir na prática: manter-se bem hidratado e subir devagar”, diz Marcos. Cansaço nas coisas simples Marcos Bogado e colegas durante a subida do Everest Cortesia/Marcos Bogado Com menos oxigênio para distribuir, o músculo cardíaco entra em regime de urgência. Ele precisa bombear mais para levar o pouco que há até as células, e a frequência cardíaca dispara. O coração passa a bater muito mais rápido apenas para manter o mínimo funcionando —uma aceleração que acompanha o montanhista o tempo todo, inclusive parado. Olivia sentiu isso na pele antes mesmo de encostar em qualquer parede de gelo. Já no acampamento-base do Everest, a cerca de 5.400 metros, tarefas banais viravam provações. “Até esforços simples, como subir uma pequena elevação ou ir ao banheiro, já me deixavam completamente ofegante”, conta. Some-se a isso a fome que some nos primeiros dias e a dor de cabeça que aperta, e o retrato é de um corpo trabalhando no limite muito antes do cume. Por isso, diz ela, é essencial ter passado por montanhas menores antes: para não interpretar esse desconforto inicial como sinal de que algo deu errado. A zona da morte Existe uma altitude a partir da qual nenhuma preparação basta. Até certo ponto, subindo devagar, o corpo se adapta. Acima dos 8 mil metros, porém, mesmo com oxigênio suplementar e uma aclimatação perfeita, ele não consegue mais. "A partir dessa altura, o corpo começa, lentamente, a se degradar", diz Marcos. É a faixa que os montanhistas chamam de zona da morte. Ali, a permanência é medida em horas. Marcos lembra que há relatos de escaladores que passaram quase um mês acampados perto dos 7 mil metros e se adaptaram bem —mas acima dos 8 mil não existe adaptação possível. “Há uma janela limitada para subir, alcançar o cume e iniciar a descida. Permanecer por tempo demais aumenta drasticamente o risco de não voltar.” Por isso a etapa final é uma corrida contra o relógio —quanto menos tempo acima dos 8 mil metros, mais seguro