Torcer é sofrer de novo: o que a psicanálise diz sobre o vício em esperar pela vitória do Brasil
AI Summary
A Brazilian football fan reflects on the recurring cycle of hope and disappointment tied to the national team's World Cup performances. A psychoanalyst explains this emotional pattern in terms of national identity and the deep-rooted cultural significance of football as a collective narrative in Brazil.
A Brazil soccer fan watches Brazil's World Cup match against Norway on a screen on Copacabana beach in Rio de Janeiro, Brazil, Sunday, July 5, 2026. AP Photo/Bruna Prado Depois de mais uma eliminação, o ritual se repete: a bandeira guardada, o silêncio nos grupos de WhatsApp, a promessa de que "dessa vez não vou nem assistir". E, quatro anos depois, lá está o brasileiro de novo, vestindo a camisa, torcendo com a mesma intensidade de sempre —como se a última frustração jamais tivesse acontecido. Esse ciclo de dor e esperança renovada tem uma explicação que vai além do campo, e ela mora na mente de quem torce. Segundo o psicanalista Christian Dunker, professor titular em Psicanálise e Psicopatologia do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), essa relação intensa começa numa raiz histórica: o futebol funciona como uma narrativa nacional. O país reconta sua própria trajetória a partir das Copas —58, 70, a frustração de 82— como se cada torneio fosse um capítulo da biografia coletiva do Brasil. Piauienses vivem frustração coletiva com queda do Brasil na Copa Torcer o corpo Dunker recorre a um detalhe da língua para explicar essa relação: a origem da própria palavra 'torcer'." Ela vem do mesmo gesto de torcer uma roupa, de forçar dois sentidos opostos ao mesmo tempo —o que, segundo ele, convoca o corpo do torcedor de um jeito quase literal, como se ele se contorcesse junto com o time. No fundo, explica o psicanalista, torcer é sinônimo de desejar, de querer, de sonhar mesmo sabendo que o time não vence há décadas. Essa dimensão do desejo é o que Dunker chama de "oniropolítica" —a política dos sonhos que o futebol sustenta. É o suporte concreto para que o brasileiro sonhe com o improvável, com aquilo que talvez nunca aconteça, mas que ainda assim parece possível. Há também, segundo o psicanalista, um componente coletivo poderoso nessa equação: ao contrário de boa parte dos esportes, o futebol permite que o mais fraco vença o mais forte. Foi o que aconteceu, lembra Dunker, com a seleção de Cabo Verde —uma equipe de poucos recursos avançando contra potências estabelecidas e, por pouco, não eliminando a atual campeã do mundo. Essa possibilidade mobiliza, segundo ele, os sonhos de quem enfrenta as próprias improbabilidades na vida. Torcedores brasileiros assistem à partida da Copa do Mundo entre Brasil e Noruega em um telão na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, Brasil, domingo, 5 de julho de 2026. AP/Bruna Prado Expectativa é proporcional à frustração Os jogadores mudam, contratos terminam, gerações se sucedem —mas o time, como significante, permanece. Um clube sobrevive aos seus piores e melhores momentos, explica Dunker, e é por isso que qualquer torcedor pode falar em nome da equipe, para o bem e para o mal. Essa identificação coletiva, segundo ele, ultrapassa até as próprias rivalidades: quando é a seleção que entra em campo, as bolhas entre torcidas organizadas se dissolvem numa só comunidade imaginada. O tamanho dessa comunidade explica, para o psicanalista, o tamanho da decepção. Toda expectativa muito grande produz uma frustração proporcional —e a Copa do Mundo, diz Dunker, é a maior expectativa coletiva que o país constrói. Por isso algumas pessoas desenvolvem o que ele descreve como uma estratégia de prevenção cognitiva: fingir que não se importam, recusar-se a desejar, para não sofrer com a contradição. Endrick (19), do Brasil, reage durante a partida das oitavas de final da Copa do Mundo entre Brasil e Noruega em East Rutherford, NJ, perto de Nova York, domingo, 5 de julho de 2026. AP/Adam Hunger O luto ensina Dunker não hesita em usar a palavra luto para descrever o que o brasileiro atravessa depois de uma eliminação. Trata-se, explica o psicanalista, de uma ferida narcísica: a derrota escancara o quanto o futebol é contingente, o quanto tudo poderia ter sido diferente se a bola tivesse entrado, se o pênalti tivesse sido convertido. Mas o psicanalista destaca uma etapa do luto pouco comentada: a etapa criativa. Segundo ele, o luto não é só aceitação da perda —é também transformação daquilo que a experiência ensinou. A Copa perdida nunca será vencida retroativamente, pontua Dunker, mas a experiência da derrota pode, com o tempo, ser ressignificada como parte do caminho até uma vitória futura. Já os erros dramáticos —o pênalti perdido, a falha isolada de um jogador— carregam um risco à parte. Dunker explica que o imaginário coletivo transforma certas derrotas em traumas justamente quando há esse elemento de improviso, de acaso recaindo sobre uma única pessoa. É o padrão que ele associa a episódios como o erro de Toninho Cerezo na Copa de 82 ou de Barbosa na Copa de 50: a tendência coletiva de buscar um culpado, de depositar a raiva em um único lance, cria uma memória que não se dissolve —uma memória que, nas palavras do psicanalista, "transmite em silêncio" e alimenta ressentimento. Um mural retratando Vinicius Junior cobre uma parede no bairro do Vidigal, no Rio de Janeiro,